Considerado por muitos como um dos pioneiro da música electrónica,
Gary Numan é uma espécie de legado histórico que ficou dos 80. Sem ele não teríamos hoje
Depeche Mode ou
Massive Attack e influência da música de
Numan é absolutamente inegável em bandas como os
Nine Inch Nails ou
Marilyn Manson. O seu sucesso não se restringe, no entanto, a um nicho fechado. Músicos como
Beck,
Tricky,
Damon Albarn ou
Jarvis Cocker assumiram a sua admiração por
Gary Numan e as suas músicas, num claro exemplo de transversalidade, foram já utilizadas por nomes tão fora do seu 'círculo musical' como
Afrika Bambaataa ou
Sugababes.

Foi uma sala meio-despida que recebeu ontem
Gary Numan na Casa das Artes de Famalicão. A média de idades dessa meia-sala era, compreensivelmente, bastante adiantada - constituída essencialmente por pessoas que, sem dúvida terão vivido os tempos áureos de
Numan e dançado ao som das suas músicas em inúmeras ocasiões da sua juventude. É uma pena que o concerto tenha passado ao lado de tanta gente e a lotação ter-se apresentado tão baixa.
Pessoalmente, tenho de confessar não ter "feito os trabalhos de casa" para este concerto (ou mesmo para esta pequena crítica) visto não conhecer quase nada do longo espólio musical de
Numan. Sim, a
Cars é um hino incontornável dos anos 80 mas, para além disso, pouco ou nada mais sabia. Foi portanto com grande surpresa que recebi a actuação de
Numan.
O tom da música de
Numan é sombrio, em relação a isso não haveriam dúvidas, no entanto a densidade do som debitado em palco ultrapassou largamente o que esperava. Pelo que pude apurar, ao longo da carreira, a sonoridade de
Gary Numan foi-se afastando sucessivamente daquele
new-wave/synthpop que hoje consideramos como "típico dos anos 80" para fazer uma aproximação a um rock industrial bastante agressivo. Deparado com essa realidade em palco, apercebo-me que as influências a
Nine Inch Nails não funcionaram num só sentido e, por diversas vezes durante o concerto, poderia ter jurado que estar a ouvir a banda de
Trent Reznor.

Achei a primeira metade do concerto demasiadamente pesada, talvez por não ser uma sonoridade com que me identifique pessoalmente ou, simplesmente, por não conhecer o percurso de
Numan estar à espera de tamanha intensidade. No entanto, a partir de
Down in the Park (sensivelmente a meio) o tom abrandou ligeiramente e consegui então desfrutar mais do espectáculo. Esse terá sido para mim o momento alto do concerto a par de
Are Friends Electric?.
Não foi um concerto que me tenha enchido as medidas mas dificilmente alguém pode afirmar que
Numan não cumpriu exemplarmente o seu dever. Com 52 anos de idade e 34 de carreira,
Gary Numan está em forma e recomenda-se - talvez não tenha o mesmo vigor de outros tempos, mas é ainda um testemunho vivo do que de bom se fazia nos anos 80.
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