Neste país, como em todos os outros, há artistas e 'artistas'. Hoje Portugal perdeu um Artista com 'a' grande. Não há como esquecer a brilhante Conversa da Treta (talvez o trabalho mais reconhecido de António Feio) que levou a cabo com o seu grande companheiro e amigo José Pedro Gomes. A Treta, de série televisiva passou a peça de teatro (A Treta Continua, partes I e II) e ainda deu origem a um filme de cinema (O Filme da Treta).
As gargalhadas e bons momentos não têm preço. António Feio proporcionou-me muitos dos dois tanto na série (que acompanhava religiosamente) e nos pequenos sketches soltos que protagonizou na sua carreira como mais tarde no Filme da Treta e, principalmente, na primeira das peças da Treta que tive o prazer de assistir na Casa das Artes de Famalicão. A 'Treta' acabou, mas a memória do seu talento e o seu legado no humor e na cultura portuguesa permanecem intactos.
Michael Peterson, conhecido por Charles Bronson, é o prisioneiro mais famoso do Reino Unido e ganhou essa fama por ser o prisioneiro mais violento e também o mais caro ao Sistema. Tem hoje 56 anos e já está preso há 34 tendo passado 30 desses em solitária sendo que ainda não está prevista a sua libertação. Bronson é o título do filme que retrata a vida deste homem.
O filme foi desde logo comparado ao grande clássico A Laranja Mecânica. Embora compreenda o sentido dessa comparação acho-a um tanto ou quanto exagerada. Ambos retratam criminosos extremamente violentos que tiram prazer de ser assim mas Bronson não é tão icónico ou satírico como o clássico de Kubrick. No entanto afirmo com veemência que, dos filmes que vi recentemente, Bronson foi o que vi com maior prazer.
O nível de representação de Tom Hardy é definitivamente acima da média. Ele está verdadeiramente excepcional no papel principal. Não se limitando a simplesmente representar o papel, Tom Hardy encarna o próprio Charlie Bronson. As suas gargalhadas de loucura arrepiam e o seu sorriso enquanto espanca e é espancado parece realmente genuíno. Uma vez que o filme totalmente é construído à volta de Bronson uma representação deste nível seria indispensável ao sucesso do mesmo e Tom Hardy deu provas do seu valor conseguindo, quase sozinho, segurar a hora e meia de filme.
A história é narrada na primeira pessoa, mas grande parte dessas narrações são feitas no mundo interior de Bronson, na sua cabeça. Assim, o realizador Nicolas Winding Refn mistura cenas 'reais' com cenas algo psicadélicas e que se assemelham a teatro ou stand-up. Essas cenas passar-se-ão na desequilibrada mente de Bronson narrando este a própria história ora directamente para a câmara ora para um público invisível. Nicolas Winding Refn consegue um equilíbrio entre estas duas facetas do filme conseguindo ainda acrescentar um curto segmento de animação e uma espécie de slide-show sem que estes pareçam deslocados.
A última coisa que penso ser indispensável de realçar em Bronson é a banda sonora e o uso da música. Os momentos musicais são sublimes a um nível que raramente vejo no cinema. A música oscila entre música clássica e 'foleirices' dos anos oitenta e nenhuma destoa da outra. Há alturas em que Verdi, Strauss ou Wagner são exactamente o que a cena pede e outras em que a cena parece feita para os Pet Shop Boys ou os New Order. Outras há que Madame Butterfly encaixa que nem uma luva e outras ainda em que Glass Candy é o que cai bem. Bronson é um exemplo brilhante de uma banda sonora variada e eficiente.
Charles Bronson concretizou o seu sonho de criança, ser famoso. Talvez não o tenha feito da melhor forma, mas conseguiu o seu objectivo. Poder-se-ia pensar que o filme glorifica a violência exaltando um criminoso, mas não é isso que acontece. É verdade que simpatizamos com Bronson, mas não acabamos o filme a desejar ser como ele. Bem pelo contrário pois afinal, que vantagem pode haver se, para realizarmos o nosso sonho, temos de passar uma vida inteira atrás das grades?
Numa qualquer cidade, no centro da agitação das ruas, por entre transeuntes e cartazes publicitários aparecem estes habitantes de avenidas, parques e praças. Remexem caixotes do lixo, lavam carros, fazem barrelas, recolhem pontas de cigarros, dançam, toureiam, comem… O contacto directo com quem passa e com quem os segue pelos percursos que efectuam provoca as mais insólitas situações, até que terminam a dançar por entre o colorido espectáculo de fogo-de-artifício. Não julgam a cidade. Ela pertence-lhes e são felizes, manifestando o seu modo de sentir através do ambiente que criam. “Business Class” acontece ao ar livre e no espaço público. O público, surpreendido pela sua presença nos espaços que percorre dia-a-dia, é levado a participar na peça, transformando-se inesperadamente em actor.