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Tuesday, June 22, 2010

Discos do Baú nº5

Fausto Bordalo Dias - também conhecido simplesmente por Fausto - é um dos nomes mais influentes da história da música portuguesa. Lançou o seu primeiro disco (homónimo) em 1970 e nestes já 40 anos de carreira construiu uma discografia sólida e consolidou uma posição de destaque de entre os mais ilustres músicos de Portugal.

Fruto do ambiente político que se vivia na época (tanto no período pré 25 de Abril como nos instáveis anos que lhe sucederam), Fausto infundia as suas canções com grande conotação política fazendo essencialmente canções de intervenção. Aos poucos, no entanto, a sua música foi ficando esteticamente mais cuidada e plantou dessa forma a semente daquilo que viria a ser conhecido como Música Popular Portuguesa. Essa semente germinou, desenvolveu-se e, com Por Este Rio Acima (1982), floresceu.

POR ESTE RIO ACIMA
Fausto (1982)
Género - Tradicional portuguesa
Editora - CBS
Duração - 76:29
Faixas - 9+7
  1. É o mar que nos chama (2:45)
  2. O barco vai de saída (3:47)
  3. Porque não me vês (5:13)
  4. A guerra é a guerra (4:27)
  5. De um miserável naufrágio que passámos (3:05)
  6. Como um sonho acordado (6:05)
  7. A ilha (4:42)
  8. A voar por cima das águas (3:56)
  9. Olha o fado (3:56)
  1. Por este rio acima (4:58)
  2. O cortejo dos penitentes (6:21)
  3. O romance de Diogo Soares (5:34)
  4. Navegar, navegar! (4:08)
  5. O que a vida me deu (3:40)
  6. Lembra-me um sonho lindo (6:28)
  7. Quando às vezes ponho diante dos olhos (7:37)

Por Este Rio Acima teve (e tem) tamanha importância no desenvolvimento da música portuguesa que quase seria pertinente questionarmo-nos sobre o que teria sido dela sem ele. Essa questão é apenas uma forma engraçada de reforçar o impacto deste álbum pois, obviamente, qualquer resposta efectiva a essa pergunta seria meramente especulativa e um simples exercício de pura adivinhação e, portanto, uma perda de tempo

Este disco é uma longa viagem, uma grande epopeia marítima de Portugal ao Oriente - digo marítima porque  ao contrário do que o nome do álbum poderá indicar, quase todas as  faixas do disco incluem alguma referência ao mar. Assim, a cada faixa e cada referência a viagens, mar, navios e marinheiros Fausto evoca o período dos Descobrimentos lembrando, julgava eu, Os Lusíadas. Ao pesquisar um pouco sobre o álbum, apercebo-me que Por Este Rio Acima efectivamente foi inspirado num grande épico literário mas contrariamente ao que pensava, esse não foi o ex-libris de Camões. Ao que parece Fausto inspirou o seu trabalho na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto que, por circunstâncias várias, acabou por ser tornar num a obra um pouco negligenciada em detrimento d'Os Lusíadas.

Apesar de narrar viagens a terras longínquas, Por Este Rio Acima está bem enraizado na tradição portuguesa, raízes essas que vão mais fundo do que a temática. Pautado por cavaquinhos, guitarras portuguesas, adufes, coros e outros instrumentos tradicionais, o folclore tem neste disco uma presença muito forte transportando para os nossos ouvidos ecos bem definidos do Portugal rural.
"De um miserável naufrágio que passámos" ou "A voar por cima das águas" lembram ranchos e arraiais enquanto que com "Olha o fado" - cujo nome não é deixado ao acaso - se respira um agradável cheirinho a fado.
Ao longo dos dois discos que compõem o álbum encontram-se temas aparentemente festivos e que ficam no ouvido como "A guerra é a guerra" e "Navegar, navegar!" e também baladas introspectivas e carregadas de saudade, aquele sentimento tão português, como "Como um sonho acordado" e "Lembra-me um sonho lindo". Por Este Rio Acima é um álbum completo, quase perfeito a meu ver (ou talvez deva dizer ouvir).

Fausto é um dos grandes nomes da música portuguesa que surgiram de certa forma no contexto político do regime Salazarista. Nessa época desenvolveu-se uma espécie de 'geração de ouro' inspirada por Zeca Afonso. Desses, importa destacar Sérgio Godinho e José Mário Branco com quem Fausto trabalhou por exemplo na gravação do último trabalho de Zeca Afonso quando a doença não lhe permitiu conclui-lo sozinho e com quem partilhou recentemente o palco com o projecto 3 Cantos.

Muita coisa se pode dizer sobre Fausto e Por Este Rio Acima mas uma coisa é unânime - a sua enorme importância para a música portuguesa. É difícil imaginá-la sem a influência deste disco.

13bly

Monday, May 10, 2010

Discos do Baú nº4

Os Pink Floyd são seguramente uma das bandas mais influentes da história da música. A sua longa caminhada começou em 1967 com o psicadelismo evidente de The Piper at the Gates of Dawn e a sonoridade da banda foi evoluindo de álbum para álbum até atingirem o sucesso comercial e reconhecimento mundial de que ainda hoje, mesmo estando cada um para seu lado, gozam.

A principal alteração profunda na banda ocorreu quase logo após o lançamento do primeiro álbum com a substituição de Syd Barret por David Gilmour. O contributo criativo (e insano) de Barret não poderia ser igualado e, apesar de ainda ter participado em A Saucerful of Secrets, a sonoridade dos Pink Floyd nunca mais foi a mesma.

THE PIPER AT THE GATES OF DAWN
Pink Floyd (1967)
Género - Rock psicadélico
Editora - Columbia/EMI
Duração - 41:52
Faixas - 11
  1. Astronomy Domine (4:12)
  2. Lucifer Sam (3:07)
  3. Matilda Mother (3:08)
  4. Flaming (2:46)
  5. Pow R. Toc H. (4:26)
  6. Take Up Thy Stethoscope and Walk (3:05)
  7. Interstellar Overdrive (9:41)
  8. The Gnome (2:13)
  9. Chapter 24 (3:42)
  10. Scarecrow (2:11)
  11. Bike (3:21)
The Piper at the Gates of Dawn é um hino ao psicadelismo. Não é propriamente o território pelo qual os Pink Floyd são actualmente reconhecidos, mas foi assim o início da sua carreira. Penso não ser exagero afirmar que, nesta fase, a grande força criativa da banda residia precisamente em Syd Barret (e no seu desequilíbrio mental) - basta ver a direcção que a banda seguiu quando liderada a meias por Roger Waters e David Gilmour após o abandono precoce de Barret.

Dificilmente se poderá catalogar alguma das faixas de The Piper at the Gates of Dawn de "convencional" - cada uma delas quebra convenções a vários níveis, desde a própria estrutural das músicas como da utilização sons improváveis em diversas faixas.
O álbum arranca com uma viagem espacial a bordo de Astronomy Domine e mais à frente essa viagem é retomada com a épica Interstellar Overdrive que nos transporta mais longe pelo espaço sideral aos locais mais recônditos do Universo. No entanto, de volta à Terra, The Piper at the Gates of Dawn apresenta-nos coisas tão "banais" como o gato de Syd Barret (Lucifer Sam) e uma mistela de contos de fadas (Matilda Mother) e com Flaming, The Gnome e Bike, Syd Barret mostra o seu lado de eterna criança conseguindo, sem nunca se desligar do psicadelismo que é fio condutor do álbum, construir músicas propositadamente simplistas e facilmente associáveis à visão algo inocente de uma criança.

O caos de Take Up Thy Stethoscope and Walk tem a assinatura de Roger Waters e a sua letra mais sombria reflecte isso mesmo. A música é um crescendo constante desde o primeiro chamamento por um médico até ao profundo sentimento de confusão e urgência que se sente mais para o final da faixa. Esta é a única faixa do disco à qual não é atribuída autoria ou co-autoria de Barret.
A universalidade deste álbum é cimentada com Pow R. Toc H., Chapter 24 e Scarecrow. A primeira é um instrumental dominado pelo piano mas condimentado com diversos jogos de voz e sons produzidos pela boca (brincadeira que os Floyd viriam a repetir em Ummagumma ao imitar animais) e nas outras duas, respectivamente, Barret pisca o olho aos métodos de adivinhação chinesa e deixa-se levar por dúvidas existenciais comparando-se a um espantalho.

The Piper at the Gates of Dawn talvez seja mais Syd Barret do que Pink Floyd mas é um álbum incontornável da longa carreira dessa banda mítica. Não só por ter sido o primeiro passo de uma longa caminhada mas principalmente por ser um excelente legado musical que viria (e continuará) a influenciar e inspirar inúmeras gerações de músicos e não-músicos pelo mundo fora.

13bly

Monday, March 29, 2010

Discos do Baú nº3

A terceira "edição" dos Disco do Baú volta a ser um grande desafio para mim afinal, o que haverá mais para escrever sobre Frank Zappa que não tenha sido já escrito? Provavelmente nada, mas de qualquer das formas vou tentar a minha sorte.

Zappa começou a sua carreira musical com os Mothers of Invention e desde cedo se mostrou altamente satírico e criativo. O seu estilo musical é difícil de catalogar pois uma das coisas que mais o distingue é a sua capacidade de fundir diferentes elementos na mesma música. Não é difícil detectar influências de jazz, blues e rock na música de Zappa, mas dificilmente ele se contentaria com tão pouco. O génio criativo de Zappa é grande demais para cair em estereótipos e, em cada um dos seus trabalhos, quebra barreiras de estilos musicais e utiliza constantemente instrumentos pouco comuns de formas totalmente inovadoras.

HOT RATS
Frank Zappa (1969)

Género - Jazz-fusão
Editora - Bizarre/Reprise
Duração - 47:05
Faixas - 6
  1. Peaches en Regalia (3:38)
  2. Willie the Pimp (9:25)
  3. Son of Mr. Green Genes (8:58)
  4. Little Umbrellas (3:09)
  5. The Gumbo Variations (16:55)
  6. It Must Be a Camel (5:15)
Hot Rats foi o segundo álbum da carreira a solo de Zappa e o primeiro após o fim dos Mothers of Invention. Foi sem sombra de dúvidas um grande passo em frente relativamente aos seus trabalhos passados, passo esse que viria a marcar profundamente a sua música para o futuro. Neste disco, Frank Zappa "deixa para trás" as habituais faixas curtas carregadas de sátira para dar vez a músicas mais longas, estruturadas e complexas carregadas de longos solos e improvisos.

O álbum abre brilhantemente com Peaches en Regalia, uma das faixas mais célebres de Frank Zappa e considerada por muitos como um autêntico hino ao jazz-fusão. A sucessão de instrumentos na faixa dá-se na forma de solos mais ou menos complexos o que confere à peça texturas distintas - há momentos em que podemos jurar detectar influências mediterrânicas mas, minutos depois já tudo tem uma sonoridade inconfundivelmente oriental. O curioso é que estas alternâncias, que à partida poderiam ser incompatíveis, parecem encaixar na perfeição umas nas outras.

O grande destaque do disco vai ainda para a épica The Gumbo Variations, possivelmente a faixa que domina o álbum. São 16 minutos de pura genialidade musical durante os quais se ouvem excêntricos solos de saxofone, violino eléctrico e guitarra. Toda a música soa a uma gigantesca jam session onde Ian Underwood (ao saxofone), Don "Sugarcane" Harris (no violino) e, claro, o próprio Frank Zappa (na guitarra) vão mostrando um pouco do muito que sabem fazer com os respectivos instrumentos.

Willie the Pimp é a única faixa que conta com a presença dotes
vocais. Captain Beefheart emprestou a sua voz calejada para descrever um homem da 'má vida' nesta faixa que acaba por dar o nome ao disco. As influências rock e blues são inegáveis no entanto nem tudo é tão linear pois grande parte da música é um longo solo de guitarra com forte cheiro a improviso. O mesmo acontece com Son of Mr. Green Genes que, apesar de não ser tão marcadamente rock ou blues, mantém os longos e geniais solos de guitarra.

Little Umbrellas é um regresso ao estilo de Peaches en Regalia mas é também, para mim (se é que alguma das músicas de Zappa pode ser considerada desta forma) a música menos interessante do álbum. Essa "falha" (que não chega propriamente a sê-lo) é, no entanto, rapidamente colmatada visto que antecede a já referida The Gumbo Variations. Para encerrar este álbum histórico, Zappa optou por It Must be a Camel - uma música cheia de alternâncias rítmicas e melódicas que parece, de certa forma, reunir um pouco de tudo o que se ouviu ao longo do disco.

Hot Rats é um dos discos mais importantes da carreira de Frank Zappa não só pelo grande passo em frente que representou na sua música mas também pela forma como influenciou todo o panorama musical da época (com repercussões até aos dias de hoje). Frank Zappa foi um dos maiores génios e visionários musicais que o mundo já viu e, portanto, a audição da sua obra deveria ser obrigatória a todos os que dizem gostar de música.

13bly

Wednesday, February 17, 2010

Discos do Baú nº2

Para o segundo Disco do Baú escolhi Tom Waits. Este é um dos meus músicos de eleição e, por isso mesmo, estarei bastante mais à vontade com o tema do que estava quando falei de Coltrane. No entanto, nem tudo são rosas e desta vez a principal dificuldade não residiu no estilo musical mas antes em escolher qual, dos muitos (diferentes, mas ainda assim excelentes) álbuns de Waits haveria de seleccionar.

Algo dividido também entre o Rain Dogs e o Blood Money acabei por eleger Heartattack and Vine por, para além de ser um dos meus favoritos, ser também um ponto de viragem na carreira de Waits. Heartattack and Vine foi o último álbum lançado pela editora Asylum e seria também o último com características "mais tradicionais" antes de mergulhar em experimentalismos e se reinventar com Swordfishtrombones.

HEARTATTACK AND VINE
Tom Waits (1980)

Género - Blues ?
Editora - Asylum
Duração - 43:42
Faixas - 9
  1. Heartattack and Vine (4:50)
  2. In Shades (4:25)
  3. Saving All my Love for You (3:41)
  4. Downtown (4:45)
  5. Jersey Girl (5:11)
  6. 'Til the Money Runs Out (4:25)
  7. On the Nickel (6:19)
  8. Mr Siegal (5:14)
  9. Ruby's Arms (5:35)
Apesar de ser EXTREMAMENTE difícil definir o estilo de Waits, eu diria que a grande influência de Heartattack and Vine e de grande parte da sua obra até aí (com excepção de algumas baladas 'choronas' e de algumas músicas com claros rasgos de jazz) será o blues.

O álbum começa com a faixa que lhe dá o nome. Heartattack and Vine é o ponto de partida para esta viagem noctívaga. A percussão e o contrabaixo marcam um compasso lento que define o ambiente algo decrépito que se viverá nalgum bar manhoso situado no cruzamento de duas ruas. Essa percepção é intensificada pela a voz esforçada do próprio Waits que quase faz doer a garganta só de ouvir. A faixa seguinte é instrumental e, não sendo genial, é bastante agradável e encaixa que nem uma luva no ambiente descrito anteriormente. Adequadamente baptizada de In Shades, esta música reforça o ambiente sombrio de bar pouco frequentado. Ao fundo ouvem-se alguns sons de pessoas a conversar dando a impressão de estar a ser tocada por uma qualquer banda no bar manhoso já referido.

Nada transmite melhor os sentimentos de um amor perdido do que Waits sentado ao piano. Saving All My Love for You e Ruby's Arms (que fecha o álbum brilhantemente) são dois dos melhores exemplos disso. Tanto a nível musical como lírico Waits consegue transportar para este disco toda a carga emocional associada a um desgosto amoroso.
Já que falo das baladas, Jersey Girl é a segunda de Heartattack and Vine, mas desta feita, ao invés de se apoiar numa melodia de piano, esta música busca inspiração no country tradicionalmente americano, fazendo lembrar o estilo de Bruce Springsteen (que uns anos mais tarde viria inclusivamente a tocar esta música). Pessoalmente, a par de 'Til the Money Runs Out esta será a faixa que menos gosto mas, importa dizer que, tanto uma como a outra dificilmente podem ser consideradas más...

Downtown, é a música mais dançável do álbum e aparece 'ensanduichada' entre duas baladas (Saving All My Love for You e Jersey Girl) garantindo ao mesmo um certo equilíbrio. O mesmo se passa com Mr.Siegal que, com um toque bem regado a whisky procura levantar um pouco o ânimo após On the Nickel - a faixa mais deprimente de Heartattack and Vine.
Penso que o álbum termina da melhor forma, não só com Ruby's Arms que é, adequadamente, uma balada de despedida, mas também com as duas músicas que a antecedem que são, para mim, as melhores deste disco.

Heartattack and Vine é bem equilibrado entre baladas e faixas mais agitadas. É também um excelente legado e ponto final de uma fase de Waits pré-Swordfishtrombones.

13bly

Monday, January 25, 2010

Discos do Baú nº1

Porque a música de hoje vem da música de ontem, Discos do Baú é o nome da nova rubrica do 13bly e nela irá falar-se de álbuns que são muitas vezes catalogados de, simplesmente, "antigos". Numa altura em que a música é, cada vez mais, consumida a um ritmo avassalador é importante recordar algumas preciosidades do passado que, tal como o vinho do Porto, não perdem qualidade com o passar do tempo.

Antes de começar, quero apenas deixar bem claro que não possuo qualquer formação musical nem conhecimento algum de manuseamento seja de que instrumento musical for. Assim, as "críticas" aqui tecidas, serão feitas na óptica de um humilde adepto de música.

Discos do Baú nº1

Já há muito que me queria 'iniciar' no mundo do jazz. Desde pequeno (e não, isto não é conversa de futebolista) que este estilo musical me fascina, mas nunca me predispus a ouvi-lo 'como deve ser'. Haverá melhor forma de fazê-lo do que com um dos maiores génios da sua história que por sinal tocava um dos instrumentos que mais caracterizam o género? Foi por isso que escolhi A Love Supreme como o 1º disco desta rubrica.
A LOVE SUPREME
John Coltrane
(1965)



Género - Jazz
Editora - Impulse!
Duração - 33:02
Faixas - 4
  1. Acknowledgement (7:42)
  2. Resolution (7:19)
  3. Pursuance (10:42)
  4. Psalm (7:03)
John Coltrane é um dos mestres incontornáveis da história do jazz a par de nomes como Miles Davis e Thelonius Monk com quem aliás, partilhou o palco por diversas vezes. Ao longo da sua vida Coltrane andou na vanguarda do jazz quebrando barreiras nas suas inúmeras categorizações (bebop, free-jazz, modal ...). Presença assídua em listas de melhores álbuns de sempre, A Love Supreme é um dos seus trabalhos mais aclamados pois mistura influências do bebop com o qual iniciou a carreira e do free-jazz que viria marcar as fases posteriores da mesma.
  1. O soar do gongo marca o início de Acknowledgement e do álbum. Sobre um rufar nos pratos, ouvem-se as primeiras notas do saxofone de Coltrane que se silenciam de seguida para deixar o contrabaixo marcar o compasso da música. Logo lhe segue a percussão e o piano montando assim o pano de fundo para o solo de sax que constitui o 'sumo' da faixa. O som de fundo vai-se intensificando para acompanhar o solo de Coltrane até que este conduz a música novamente aos acordes definidos inicialmente pelo contrabaixo. Estabilizado o ritmo, começa o próprio Coltrane cantar o lema que deu o nome ao disco numa espécie de cântico que, ao cessar faz toda a música descer de intensidade até que apenas se ouve o contrabaixo.
  2. A faixa seguinte - Resolution - começa precisamente com o contrabaixo solitário e, sem qualquer aviso entram simultâneamente o piano, a bateria e, claro, o saxofone. Resolution apresenta um ritmo mais acelerado do que a anterior e é conduzida em grande parte por um solo de piano que, lá para o meio da música, devolve o protagonismo a Coltrane e ao seu saxofone.
  3. Pursuance é a faixa que reúne mais variedade. Talvez por isso seja também a mais longa. Inicia-se com um poderoso solo de bateria que dura cerca de um minuto e meio até ser rasgado pelo saxofone que chega acompanhado, como seria de esperar, pelo contrabaixo e piano. O saxofone mantém-se em destaque até que se inicia o solo de piano, que desemboca num novo solo de saxofone, que liga a um segundo solo de bateria que, por fim abre caminho para o solo de contrabaixo que termina a música.
  4. A Love Supreme fecha com Psalm, a faixa mais profunda e - porque não dizê-lo dado o seu nome - espiritual. A sonoridade da música transparece isso mesmo. A lenta cadência marcada por tímpanos que se ouvem ao fundo convida à reflexão. Segundo pude apurar Coltrane considerava esta faixa como uma narração musical na qual o seu saxofone recitava um poema que viria incluído no livrete da versão física do disco.
Pelo que li, John Coltrane concebeu A Love Supreme como um agradecimento a Deus pelo talento que lhe conferiu e, assim, o álbum é representativo de uma luta interior por pureza de espírito. As quatro partes que o constituem representam isso mesmo. Senão veja-se, o álbum começa com o reconhecimento (em inglês - acknowledgement) de um estado de espírito impuro, o gongo a tocar é como um despertar para essa realidade. Segue-se a decisão (resolution) limpar a alma e procurar (pursue) a pureza de espírito. Finalmente Coltrane encontra refúgio na oração e religião e dirige o seu agradecimento a Deus na forma de um salmo (psalm).

São estas as quatro partes que fazem de A Love Supreme um dos maiores testemunhos da era de ouro do jazz e do génio de John Coltrane. Este disco ainda é um perfeito aperitivo para quem, como eu, se está a iniciar neste mundo.

13bly